Tudo o que você precisa saber sobre slow fashion (+ dicas)


 

 

“We must be aware of what’s going on around us so ultimately we can be aware of what’s going on inside us”

– The Minimalists

Existe um conceito junguiano denominado Inconsciente Coletivo. Sem querer entrar em pormenores psicanalíticos, esse conceito, na prática e a grosso modo, assume a forma de um “clima” social, ou na gíria atual, uma “vibe”. É como se algo que todo mundo está pensando e querendo, de repente começa a acontecer, justamente porque todo mundo está pensando e querendo aquilo. Mas, logicamente, não é uma mágica e não acontece linearmente. Assim, um movimento que já se verifica na sociedade pode passar meio despercebido para algumas pessoas, apesar de elas estarem pensando nele ou, de alguma forma, se incomodando com suas implicações.

Pois comigo isso acontece o tempo todo. E, ultimamente, um velho hábito passou a me incomodar demais: comprar roupas sem necessidade. Eu confesso: tenho um guarda-roupas lotado. Mas, sem muita explicação, um dia desses, acho que há uns três anos mais ou menos, eu decidi parar de comprar roupas. Porque, olhando bem para o meu armário, cheguei à conclusão que tenho tudo o que preciso. E até demais. De lá para cá, eu só tirei, não acrescentei quase nada. E consertei. Conserto tudo o que posso. Sapato, então, nem se fala. Gasto mais no sapateiro do que na loja de sapatos. Sabem qual é a sensação? Então, tem gente que fala que fica feliz quando compra. Eu comecei a perceber que fico mais feliz quando eu não compro e fico feliz demais quando eu conserto alguma roupa. O último conserto que me deixou radiante foi um blazer preto que estava com o forro todo rasgado – não daria mais para usar. Ficou novo em folha.

Comecei então a reparar numa expressão usada em muitas postagens de redes sociais: slow fashion. Fui ver o que era. E era exatamente o que eu estava pensando sobre como eu gostaria de direcionar meu padrão de consumo de roupas, sapatos, acessórios e até mesmo decoração. E aí, pronto. Já me senti novamente sendo fisgada pelo inconsciente coletivo junguiano.

O movimento slow fashion foi criado em 2008 pela inglesa Kate Fletcher, consultora e professora de design sustentável do Centre for Sustainable Fashion, na Inglaterra, e foi inspirado no movimento slow food, do qual já sou adepta há muito tempo – como já contei no meu texto “Comida de Verdade” aqui no blog. Assim como em relação à alimentação, o slow fashion preconiza que tenhamos mais consciência dos produtos que consumimos, resgatando a conexão com a forma que eles são elaborados e valorizando a diversidade e as tradições locais, bem como a proximidade com o consumidor.

Assim, o slow fashion vem na contramão do fast fashion, do consumo de massa. No fast fashion, as marcas conseguem oferecer produtos de baixo preço, mas à custa de más condições de trabalho para os empregados e baixa qualidade dos produtos. É o tal barato que sai caro. E aí alguém pode indagar: mas, e o pobre que só pode comprar barato? Bem, meu palpite é que se aqueles que podem aderir ao slow fashion o fizerem, (assim como à comida orgânica e ao consumo local), no limite isso irá promover o barateamento desses produtos e então quem sabe um dia nossa sociedade poderá inverter completamente sua lógica de consumo.

Tudo isso veio ao encontro daquilo que eu vinha sentindo em relação aos critérios que me fariam comprar uma nova peça de vestuário. E, por falar em vir ao meu encontro, para corroborar minha sensação de estar na “vibe” do slow fashion, deparei-me ultimamente, meio sem querer, com alguns praticantes do movimento. Deixo então como palpite essa pequena lista de marcas super bacanas que, a meu ver, estão inseridas no slow fashion. Há muito mais do que isso, mas quis deixar aqui a recomendação daquelas com as quais tive contato e cujos produtos pude experimentar. Ah, e de quebra, deixo também o nome do lugar onde consertei meu blazer preto.

 

1 – Pipa Social – pipasocial.org.br

Comecei com o Pipa Social porque ela é mais que uma marca. É um projeto de resgate de cidadania. Estava eu uma tarde indo buscar meu filho no colégio, quando vi uma movimentação diferente num casarão na mesma rua da escola. Como eu ainda tinha um tempinho, entrei para ver o que parecia ser um tipo de bazar acontecendo ali. Foi então que me deparei com o Pipa Social. Um projeto maravilhoso de uma ONG que faz um trabalho junto às costureiras de diversas favelas no Rio de Janeiro. O Pipa Social se autodenomina como “um polo de criação coletiva” e atua descobrindo talentos nas comunidades, oferecendo oportunidade de criação conjunta dentro do ateliê. São costureiras e artesãs de várias comunidades de baixa renda que participam da criação das peças que são depois comercializadas pela Pipa, tendo parte da renda revertida para a comunidade. Saí de lá com uma peça super original, um casaco sobretudo, tipo xale. Lindíssimo.

2 – Café Costura – cafecostura.com.br

À frente do Café Costura desde 2005, Guaíra Miranda, que é filha de costureira, conta que desde pequena sempre costurou. Estudou design e engenharia e trabalhou um tempo como designer gráfica até que começou o projeto do ateliê Café Costura. Tudo começou com oficinas e hoje ela dá aulas de costura no ateliê, criando as peças para seus alunos fazerem. Com um detalhe: você leva para casa as peças que faz nas aulas de costura. O Café Costura promove, dessa maneira, o ápice do slow fashion: você faz suas próprias roupas! Claro que também há venda de roupas e existe a marca Café Costura. Mas tudo é feito e desenvolvido lá mesmo, em pequena escala e a um preço justo.

 

3 – Cofi – cofiwear.com

A Cofi é uma marca de calças masculinas (na verdade hoje já fazem também uma linha feminina de calças e também saias) que começou no próprio Café Costura. Uma ex-aluna do ateliê fez um dia uma calça xadrez para seu compadre e de tanto sucesso que a peça fez, ela levou a calça para ser desenvolvida pelo Café Costura. De lá para cá não pararam mais de fazer sucesso. As Cofis são vendidas pela internet, mas você também pode comprar direto lá no ateliê Café Costura. São fabricadas por uma única costureira e um único cortador. A marca é reconhecida como vegana por seus produtos serem 100% algodão, inclusive nos acabamentos que não levam metal nem zíper. Por fim, desenvolveram um modelo de calça exclusivo para pessoas cadeirantes. Eu tenho a minha Cofi. E sou apaixonada por ela.

4 – Masqué – masque.com.br

Conheci a Masqué na casa do meu irmão. Adriana, a designer da marca, é amiga da minha cunhada Ana e, num bate papo na sala de estar, acabei descobrindo que ela é dona da marca de sapatos maravilhosos que sempre vi nos pés da Ana. E aí, papo vai, papo vem, ela me contou que seus sapatos são fabricados artesanalmente sendo todos feitos à mão. São modelos muito originais feitos com materiais diferenciados, sendo a marca 100% brasileira. Os sapatos, além de belíssimos, são ultra confortáveis e muito duráveis.

Vejam aqui quais são os 10 valores que pautam o movimento:

https://www.slowdownfashion.com.br/single-post/2016/03/14/Ola

 

 

Ah, e promessa feita, promessa cumprida: aqui o palpite do lugar onde consertei meu blazer: 

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administradora de empresas, paulistana com cidadania carioca, mãe de Graziela e Francisco, ama tomar vinho e cozinhar para os amigos, nossa morena encaracolada, e, claro, palpiteira.

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2 Comentários

  • Eliezer
    13 de setembro de 2017 at 16:10

    Eu colaboro com a sustentabilidade usando minhas camisas velhas no trabalho até ficarem puídas, será que tá valendo? 😛

    • Maria Carolina
      Maria Carolina
      4 de outubro de 2017 at 12:56

      hahahaha vale muito! Eu também ando deixando as roupas estragarem totalmente antes de adquirir novas…

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