Três motivos para você duvidar que Tijuca é subúrbio… E mais três para acreditar no contrário!


E lá estava eu num Food Truck na praça Saens Peña imaginando para onde teriam ido as mil carrocinhas de cachorro quente não gourmetizadas que antes brotavam como organismos vivos pela selva da cidade, mas hoje escasseiam num mar de tristeza e batata palha amassada, quando então nasceu a pergunta:

Tijuca é subúrbio?

Retirei um guardanapo, puxei uma caneta e listei três razões para acreditar que não, que este bairro talvez se encontre numa categoria à parte:

1 – O metrô linha 1

Definitivamente, a linha 1 não é suburbana. Pode-se, embarcando na Tijuca, alcançar a brisa fresca da praia diretamente e em tão pouco tempo que as pessoas aqui até já querem se sentir um pouco pertencentes àquele lugar. Entre a linha 1 e a linha 2 existe uma clara cizânia, toda particular, detectável no burburinho da plataforma. Isto se dá quando, na Central do Brasil, os olhares já cansados dos passageiros amontoados se cruzam antes da chegada da composição. Se a luz dela é verde, indicando Pavuna, pode-se ter certeza que o povaréu vai se enfiar como pode na lata de sardinha, podendo até sair no tapa. Comparado com o Pavuna, o metrô Uruguai é um salão de baile no fim de festa; a satisfação dos que nele embarcam é comovente.  

2 – Os condomínios

Uma coisa é certa: “pagar condomínio” é uma condição que automaticamente faz cancelar seu título de suburbano. Em geral, no subúrbio os prédios se resumem ao pequeno núcleo comercial nos centros de bairro. As crianças percorrem as ruas suburbanas pulando os muros das casas, arremessando pedras nas vidraças e chutando bolas de futebol nos portões, atividades nobres que não cabem num estatuto de condomínio. E na Tijuca? Só prédios e mais prédios. Não se pode nem soltar uma pipa numa laje, porque aqui não existe pipa, muito menos laje. Não se pode fazer churrasco num quintal, porque a especulação imobiliária já transformou há muito tempo as casas de quintal tijucanas em restaurantes chiques, onde a carne do churrasco vem adornada por umas folhinhas zombeteiras.  

3 – Os tijucanos

Pode-se ter a impressão, olhando o povo da terceira idade na praça dando migalhas aos peixes do laguinho, que esses moradores são seres muito do bem, educados e finos. Ledo engano do leitor. Na Tijuca, as senhoras aposentadas e os velhinhos fiscais da natureza são exatamente como seus congêneres da Zona Sul: vivem a lamentar a desordem e a violência e a pôr a culpa nos que vêm de fora para supostamente ferir a paz bucólica do bairro, repetindo o discurso de uma elite que só quer saber do próprio umbigo e de apregoar a exclusividade do lugar onde mora, como se aqui fosse Ipanema ou Leblon.
Virei então o guardanapo e fiz a réplica. Listei as razões pelas quais a Tijuca está lindamente inserida na parte suburbana da cidade:

1 – Os pontos finais dos ônibus

Eles irrompem a cada esquina e os gritos insanos dos despachantes se podem ouvir por toda a Tijuca. Na Zona Sul, como todos sabem, não há pontos finais: a condução simplesmente desaparece e se transforma em Uber, ou então a mãozinha mágica do prefeito desce do céu e a converte num “Troncal”, essa criatura das trevas que passa o dia numa rota circular do nada a lugar nenhum, sem descanso.

2 – A sujeira nas ruas

Se alguma coisa define o subúrbio, essa coisa é o descaso do poder público. Em um hipotético guia turístico do bairro, deveria constar que aqui na Tijuca o suor, o lixo remexido, o esgoto e os ninhos de barata debaixo do bueiro vão assaltar o olfato dos visitantes. Como num típico subúrbio, aqui o valão domina a paisagem e responde pelo nome de rio Maracanã, um canal de leito turvo onde se pode parar um pouco a caminhada para se assistir às garças disputando comida com os ratos.   

3 – Os tijucanos, de novo

De onde vêm os tijucanos? Ora, de onde eles viriam se não do subúrbio? Tudo vem do subúrbio nesse mundo. É gente de Olaria que conseguiu subir um degrau na vida e já veio se achando; é gente de Oswaldo Cruz que cansou do sacolejo e da muvuca do trem da Central; é gente do Méier que engoliu muito miojo para conseguir poupar uns níqueis e se estabelecer menos longe da praia que tanto ama. Toda essa gente constitui uma população que trouxe consigo de mala e cuia a suburbanidade mais autêntica e arraigada.  

No final, tendo suportado o longo tempo de espera para degustar um hambúguer artesanal de 30 pratas, sem direito nem a ketchup porque a turma gourmetizada não admite macular vulgarmente os sabores autênticos de uma alta criação gastronômica, não cheguei a conclusão alguma com esse meu exercício. Apenas amassei o guardanapo e comecei meus planos de ir conhecer a famosa batata frita de Marechal Hermes.
Dê também seu palpite, leitor! Diz aí: Tijuca é ou não é subúrbio?

 

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sociólogo, carioca, pai da Amelie, vai do samba de raíz ao rock ‘n roll sem escalas, escreve bem pacas, nosso moreno claro e, lógico, palpiteiro.

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1 comentário

  • Eliezer
    1 de junho de 2017 at 22:43

    É isso mesmo! Frequento a Tijuca desde a adolescência e sempre a achei um “híbrido” da Zona Norte com a Zona Sul. Até porque é um bairro muito grande, com espaço para essa diversidade.

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