A rua é uma festa


 

“Criança precisa andar pela cidade para ser cidadã”.
Irene Quintáns, Urbanista

Há pouco tempo atrás, escrevi um texto aqui no blog sobre Higienópolis – o bairro mais carioca de São Paulo. Ali, eu falava como eu, que sou uma paulistana da gema, mudei completamente o meu modo de perceber a cidade ao vir morar no Rio de Janeiro. E, quando eu digo “cidade”, refiro-me ao termo em sentido lato, ou seja, a cidade de maneira geral.

Já falei naquele texto que há uma enorme diferença na forma como o carioca e o paulistano fazem uso das suas cidades. E aqui, pretendo dedicar-me a um ponto crucial que expressa essa diferença: a utilização do espaço público. Em São Paulo isso ainda praticamente não acontece. Lá, as pessoas vivem intramuros, praticamente não há convivência nas ruas.

Existe um aspecto muito particular nesse assunto que, no meu caso, é determinante na forma como eu passei a conceber a vida em uma cidade: Meus dois filhos nasceram e estão sendo criados no Rio de Janeiro. A partir daí, eu jamais consegui imaginar criar um filho em São Paulo. Minha primogênita, Graziela, hoje com 14 anos, teve toda sua infância vivida na Praça Nossa Senhora da Paz e no Posto 8, em Ipanema. Todos os seus amiguinhos foram feitos nesses lugares. Ela conserva essas amizades até hoje e eu fiquei amissíssima das mães. Isso mostra a enorme relevância que o espaço público exerce na vida social de um carioca. Não vou entrar muito no aspecto sociológico da questão, mas é impossível não salientar que, ao frequentar lugares públicos desde pequenininho, o cidadão irá tornar-se um adulto mais tolerante, sensível e livre de preconceitos. Pois seus amigos de infância terão sido de diferentes raças e classes sociais. A conclusão é que ao segregar menos, no limite, há uma diminuição da violência por meio do convívio social. Fora o fato de que o sentimento de pertencimento a um lugar é dado pelo seu uso e, consequentemente, resulta em sua preservação.

Nathalia Lovati Fotografia – Fotografa de amor / www.nathalialovati.com.br

Mas voltemos à minha experiência. Seu ápice se deu agora, com meu segundo filho, Francisco, de 3 anos e meio. Nesses dez anos que separam o nascimento deles, surgiu um novo fenômeno que virou moda e que atesta não apenas o modus vivendi carioca mas também a forma como eles se apropriam do espaço público, demonstrando que, afinal de contas, ele é mesmo de todos: refiro-me à realização de festas infantis em diversos lugares públicos da cidade. Isso é impensável em São Paulo. Não consigo imaginar e nunca vi uma festa infantil sendo feita no parque do Ibirapuera, por exemplo. Uma pena. Pior para eles.

 

Sabrina Mesquita Fotografia

As duas únicas festas do Francisco foram em lugares públicos: a de 1 ano foi na Lagoa Rodrigo de Freitas; a de 3 anos foi na Praça Nossa Senhora da Paz. Fora isso, tenho uma amiga que também já comemorou o aniversário do filho de 7 anos em diversos lugares, e o nosso palpiteiro Marcos fez a festa de 1 ano da filhinha dele, Amelie, na Quinta da Boa Vista. E, por onde ando no Rio de Janeiro, continuo a ver esse tipo de festa acontecendo. E tem festa de tudo quanto é jeito. Vão desde piqueniques super simples, passando por empresas contratadas que montam tudo para você, e até aquelas em que as pessoas alugam brinquedos como camas elásticas, piscinas de bolinha, chamam recreadores, contadores de histórias…

 

Sabrina Mesquita Fotografia

Nathalia Lovati Fotografia

Ana Paula Cordeiro Fotografia

Nathalia Lovati Fotografia

É uma delícia. As crianças amam e, no caso do meu filho, escolhi fazer a festa dele de 3 anos na praça Nossa Senhora da Paz pelo significado que ela tem em sua vida. Francisco ama essa praça, vai brincar lá todos os dias, é conhecido por todos ali. Seus amigos da escola também frequentam a praça e então todos se sentiram muito à vontade.Isso é algo que faz com que a celebração ganhe um significado maior do que simplesmente comemorar o aniversário: cria um sentimento de pertencimento, pois tanto Francisco como as outras crianças, com toda a certeza, sentiram uma enorme identidade com o local e isso acabou sendo passado até mesmo para aqueles que vieram de outros bairros. E meu palpite é que essa mistura do público com o privado ajuda a formar cidadãos que sabem fazer bom uso de suas cidades – o que sem dúvida faz com que as mesmas sejam sempre bem cuidadas e não apenas uma malha viária por onde carros e mais carros se deslocam de um lugar fechado privado a outro.

E então, que tal passarmos a cada vez mais nos apropriarmos do que é nosso? Se você ainda não sabe por onde começar, vou deixar aqui uma lista de palpites de lugares públicos maravilhosos no Rio de Janeiro onde você pode fazer a festa! E festa, aqui, no sentido lato.

Ana Paula Cordeiro Fotografia

 

Sabrina Mesquita Fotografia

 

Lugares públicos para frequentar e realizar encontros e festas no Rio de Janeiro:

1. Lagoa Rodrigo de Freitas
Por toda a sua extensão está cheia de pontos maravilhosos para você comemorar. O Parque dos Patins por exemplo possui mesas, parquinho infantil e muitas árvores.

2. Quinta da Boavista
Muito bucólica, também é cheia de pontos super agradáveis para fazer um piquenique. De quebra, tem o Museu Nacional, que as crianças amam visitar por seu acervo de fósseis de dinossauros.

3. Praça Nossa Senhora da Paz
Menina dos olhos de Ipanema, ficou fechada durante as obras da linha 4 do metrô. Reaberta, já entrou forte na vida dos cariocas ipanemenses – mas não só – como um lugar público para chamar de seu. São feitas festas, piqueniques ou simplesmente pequenos encontros regados a vinho ou cerveja.

4. Floresta da Tijuca
É também cheia de lugares incríveis para celebrar sua festa. E sua beleza dispensa comentários.

5. Parque do Martelo
Uma jóia escondida no Humaitá. Logo na entrada do parque há um lugar perfeito para você fazer uma festa infantil pois possui vários brinquedos e muitas árvores.

6. Jardins do MAM – Museu de Arte Moderna
Lugar amplo, plano e perfeito para um piquenique ou simplesmente para sentar e tomar um vinho depois de visitar o museu.

Conhece algum outro lugar público para fazer a festa? Deixe o seu palpite aqui.

 

Maria Carolina Amendolara

administradora de empresas, paulistana com cidadania carioca, mãe de Graziela e Francisco, ama tomar vinho e cozinhar para os amigos, nossa morena encaracolada, e, claro, palpiteira.

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4 Comentários

  • rafaela
    3 de agosto de 2017 at 21:42

    Carol, acrescentaria a essa lista: aterro do flamengo, jardim botanico (onde fiz a festa do Be de 3 anos), parque lage, no jardim botanico, e parque guingle, em laranjeiras. E para fugir um pouco da zona sul, o bosque da barra. Otimos lugares para realizar um piquenique, fazer uma festa infantil etc. Ja fui em festas nesses lugares que citei e foram otimas! Bjss

    • Maria Carolina Amendolara
      Maria Carolina Amendolara
      4 de agosto de 2017 at 16:28

      Muito bons palpites, palpiteira, Rafa!
      Obrigada.
      Beijão.

  • Larissa
    14 de outubro de 2017 at 13:53

    Acho maravilhoso o espaço da Nossa Senhora da Paz! Eu moro bem na quadra e estou pensando em fazer minha comemoração de aniversário para 18 amigas bem ali! Você sabe se há alguma burocracia para o uso: Obrigada e parabéns pela postagem!

    • Maria Carolina
      Maria Carolina
      18 de outubro de 2017 at 17:03

      Oi Larissa! Primeiramente seria bom você consultar a subprefeitura da Zona Sul que fica na Avenida Bartolomeu Mitre, 1110 – Leblon. Mas já te adianto que depende muito do tipo de festa que você vai fazer. Tem coisas que são proibidas como por exemplo levar fogareiro para dentro da praça ou se for usar estruturas muito grandes como palcos por exemplo, talvez você precise de uma autorização. Mas se for uma festa simples, não precisa de nada, nem de autorização, contando que recolha todo o material utilizado depois. De qualquer forma, aconselho você a procurar a subprefeitura para ficar mais tranquila. Boa festa!
      beijos,
      Carolina.

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