Por que o Rio continua sendo a maior cidade do mundo (apesar de tudo)


 

Não sou dado a delírios de grandeza. Passo longe de conversas que me levem a tratar minha cidade como um “balneário de grandes eventos”, lugar “abençoado pela natureza”, berço da “maior floresta urbana do mundo” ou outros chavões publicitários. O Rio de Janeiro que reside em mim é o do feijão preto, dos isopores de cerveja na rua e dos botequins plenos de histórias miúdas.

Não preciso ouvir jazz para saber o que é improviso. Quando deslizo pelas pedras portuguesas no remanço de uma praça, quando ouço o vozerio dos mercados populares, quando vejo as contradições expostas nos trapos de alguém que dorme num desvão de poeira, entendo que é na escassez que se inventa o novo e que não preciso de nenhuma redoma ou cerca vigiada para me situar no espaço.

Quem vê a armação de uma escola de samba com olhos incultos, não compreende como aquilo pode dar certo no final, como o cortejo pode se organizar do aparente caos. Ver a armação de uma escola de samba é um ensinamento: as mãos habilidosas convergem, o comando se ajusta, as falhas inevitáveis nos lembram que nada no mundo pode pretender a perfeição.  

Grande parte do que sei hoje veio também dos próprios enredos dos desfiles. A primeira vez que ouvi falar de muitas coisas, orixás, pajelança, encantarias, escritores, músicos, artistas vários, foi com os olhos atentos ao suceder de deslumbres que toma conta da Marquês de Sapucaí nos dias de folia. Tomei conhecimento da história do bairro de Vila Isabel quando ouvi aquele belo samba de 1994 sobre o “progresso de Drummond” sendo cantado pelos componentes da escola de Noel. Descobri que a francesa Catarina de Médicis fez embarcar, lá pelos idos de 1550, uma turma de índios brasileiros para uma festa nababesca às margens do Sena, quando a carnavalesca Rosa Magalhães pôs na avenida a Imperatriz Leopoldinense naquele mesmo carnaval.

Passei quase toda a meninice fugindo de Bate-Bolas, atravessando inclusive a rua se tivesse que passar em frente a alguma loja de fantasias. Lembro como se fosse hoje: aos 4 anos, ao sair de casa trajado de índio, de mãos dadas com minha mãe, na direção do coreto carnavalesco do Irajá, não pude deixar de notar um garoto um pouco mais velho que eu atrás de uma máscara medonha imitando o Corcunda de Notre Dame, fazendo inclusive o andar curvado típico do personagem. Gelei na hora. Não pude continuar e passei os anos seguintes conferindo os desfiles na tevê. Deixar de ter medo de Bate-Bola, hoje eu penso, foi o rito de passagem que me tirou da infância. Foi quando eu ganhei as minhas primeiras espinhas e a vida se desencantou.

Durante muito tempo fomos moldados pela crença européia de que o batuque, o gingado, a dança dos dias, todos os nossos traços singulares, deveriam ser abolidos em favor de valores pretensamente civilizados. Mas desconfio, cá no botequim onde escrevo, que a carioquice é componente inescapável do que somos. Renegar justamente o que temos de mais peculiar, aquilo que sabemos fazer de melhor, aquilo que causa fascínio, não é só burrice. É papo de quem se fecha à diversidade de matrizes de conhecimento.

Por essas e outras o Rio de Janeiro continua sendo, para mim, a maior cidade do mundo. Outro dia, dei dois passos em São Paulo e, no meu jeito mais transversal, mesclado, de carioca de berço, continuei com os dois pés fincados onde nasci. Voei até Lisboa e tudo se deu da mesma maneira. Seis meses na França e esse Rio ainda transbordava por cada poro do meu corpo. 

Quanto mais distante a viagem que faço, maior fica essa cidade que carrego comigo. 

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Marcos Aquino

sociólogo, carioca, pai da Amelie, vai do samba de raíz ao rock ‘n roll sem escalas, escreve bem pacas, nosso moreno claro e, lógico, palpiteiro.

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