Existe um Rio de Janeiro em Ipanema (um quarteirão e seus botecos)


 

 

Cheguei ao Rio de Janeiro em 2002. E, desde então, moro em Ipanema. Posso mesmo dizer que eu não vim morar no Rio de Janeiro, vim morar em Ipanema. E posso também dizer que Ipanema é um bairro que contém um pequeno Rio de Janeiro em seu interior. Ipanema tem praia, tem comunidade, tem praças, tem parte nobre, tem parte menos nobre, tem rico, tem pobre, tem classe média, tem turista, tem morador de rua, tem rua gay, tem escola pública, tem escola particular, tem igreja, tem sinagoga, tem cinema, tem teatro, tem rua de comércio muito movimentada, tem hospital, tem restaurante muito chique, tem restaurante não muito chique, tem boteco pé limpo e, principalmente, há algo que não deixa esconder a carioquice de Ipanema: tem muitos, muitos, muitos botequins nas esquinas, os famosos pés-sujos considerados por muitos uma das marcas registradas do Rio de Janeiro.

E é sobre eles, os tradicionais botecos da esquina, os botequins pé-sujo, os botecos (quase) pé-limpo, todos com seus frequentadores habitués, suas dinâmicas próprias, sua carioquice entranhada no zum-zum-zum das conversas que espocam pelo ar – é sobre essa característica tão peculiarmente carioca e presente em Ipanema que esse texto ousa versar.

Ouso porque eu nem carioca sou. Entretanto, além de frequentar muitos desses botequins espalhados por Ipanema, tem mais um fator que me fez observar de perto os detalhes escondidos em cada botequim da minha redondeza: dos quinze anos que moro em Ipanema, treze são no mesmo endereço, na Rua Nascimento e Silva, eternizada pela Bossa Nova, esquina com outra não menos poética: Rua Vinícius de Moraes, antiga Rua Montenegro. E, partindo dessa esquina onde moro, percorrendo apenas um quarteirão, sem necessidade de atravessar nenhuma rua, o transeunte irá se deparar com nada menos do que cinco botequins – desses para nenhum carioca da gema botar defeito. O que há de mais interessante a respeito desses botecos é que cada um deles possui uma dinâmica própria, cada um deles pulsa a seu modo, cada um deles possui uma frequência fiel, em horários específicos e são palcos de acontecimentos particulares. Então, vamos começar o circuito?

 

Boteco Cantinho de Ipanema

Ao sair do meu prédio, virando à esquerda está o meu favorito: Boteco Cantinho de Ipanema. Trata-se de um típico boteco de esquina, daqueles que fazem mesmo a curva do quarteirão. Dizem as boas línguas que na década de 1980 esse pé sujo (que tem um PF delicioso e gigante que já me salvou diversas vezes!) era frequentado por ninguém mais ninguém menos do que Renato Russo e Cássia Eller. Hoje o Cantinho de Ipanema continua a ter uma frequência jovem. Quando tem jogo do Flamengo, fica completamente lotado de torcedores que gritam a plenos pulmões e se aboletam pelas mesas na calçada para assistir aos jogos pelas três televisões suspensas debaixo do toldo. Na hora do almoço, nos dias de semana, suas mesas são tomadas por trabalhadores que estão nas redondezas: todos vão disputar os pratos feitos muito fartos e saborosos. Houve uma época em que todas as quintas-feiras das 19 horas até meia noite mais ou menos, uma roda de chorinho se formava em uma de suas mesas – que, para minha sorte, era a mesa que fica bem embaixo da minha janela. Então eu nem precisava descer. O chorinho invadia a minha sala com sua melodia cheia de melancolia e poesia. Por fim, além das cervejas de garrafa estupidamente geladas, e dos famosos pratos feitos, o Cantinho de Ipanema tem o melhor frango à passarinho do Rio de Janeiro. Indiscutivelmente.

 

Bar d´a Casa

Coladinho no Cantinho de Ipanema, já em plena rua Vinícius de Moraes, tem um hostel que recentemente resolveu abrir as portas do seu pequeno bar/restaurante e ainda colocou umas mesas pela calçada. Tentou ser um lugar mais pé limpo, mas a extrema proximidade com o Cantinho de Ipanema fez com que o Bar d´a Casa se tornasse quase uma extensão do próprio – a diferença fica por conta dos cardápios, mas a frequência é exatamente a mesma. Outra diferença é que o Bar d´a Casa só abre para o público depois das 17 horas. Aliás, por falar em cardápio, o diferencial desse bar são os cortes de carne que você escolhe direto na geladeira para serem preparadas e servidas com suculentas batatas coradas acompanhadas de ótimas cervejas artesanais.

 

 

 

Bunda de Fora

Continuando pela rua Vinícius de Moraes, a alguns metros do bar d’a Casa chega-se o bar Bunda de Fora. Esse boteco transborda carioquice. Cara de pé sujo, tem um balcão e duas mesas na parte interna (que é minúscula) e diversas mesas espalhadas pela calçada. Reduto dos coroas da redondeza, todos os dias o Bunda de Fora é frequentado pelos mesmos senhores de cabeça branca tomadores de chope, cerveja, uísque e até vinho tinto! Com um detalhe: eles começam a chegar por volta das 11 horas da manhã e não passam das 15 horas. Depois desse horário a frequência passa a ser mais jovem, mas o Bunda de Fora tem uma particularidade inexplicável: não é um boteco boêmio como o Cantinho de Ipanema, seus frequentadores não resistem muito e o lugar fica bem mais vazio à noite.

 

Torre do Barão

Misto de lanchonete, botequim e restaurante, o Torre do Barão também se desdobra pelas esquinas das ruas Vinícius de Moraes e Barão da Torre. Tradicionalíssimo, tem cara desses lugares de cidade do interior onde o forte é o chope naquelas tulipas bem finas, tipo rabo de peixe. O lugar é apenas um balcão circundado por um toldo sob o qual estão as mesas – o que obriga os fumantes a ficaram com as tulipas na mão pela calçada, conversando com os não-fumantes sentados debaixo do toldo.  Abre bem cedo pois serve café e como fica no caminho da praia muitos moradores tomam seu café da manhã ali. Mas não tem nada de gourmetizado: é misto quente, suco de laranja e cafezinho preto. E tem coisa melhor?

 

 

 

 

Manuel & Joaquim

Saindo do Torre do Barão, virando à esquerda e percorrendo toda a rua Barão da Torre até a próxima esquina, chega-se ao Manuel e Joaquim. Esse pé limpo tradicional que possui outras unidades espalhadas pela zona sul, fica na esquina com a rua Farme de Amoedo, a famosa rua gay do Rio de Janeiro. A frequência do botequim é bastante diversa (predominam casais – gays e héteros, senhoras e famílias) e, por servirem uma boa comida de boteco, costuma ficar bem cheio desde a hora do almoço – tanto durante a semana como nos finais de semana. Seu chope também é servido naquelas tulipas fininhas e vem geladíssimo, sem colarinho (a menos que você peça), como reza o bom mandamento do tradicional chope carioca.

Assim, encerra-se o circuito dos botecos do meu quarteirão em Ipanema. Tudo isso sem precisar atravessar a rua. E então, existe ou não existe Rio de Janeiro em Ipanema?

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administradora de empresas, paulistana com cidadania carioca, mãe de Graziela e Francisco, ama tomar vinho e cozinhar para os amigos, nossa morena encaracolada, e, claro, palpiteira.

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